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O momento dos EUA no Afeganistão é o retrato de Saigon

É importante destacar o termo Síndrome do Vietnã que surgiu logo ao fracasso de 1975, um sentimento renascido na atualidade e inevitavelmente visível com a Queda de Cabul e a fuga dos EUA no Afeganistão.

A Guerra do Vietnã apresentou um cenário caótico de milhões de civis e militares ceifados de todos os lados ainda em 1973, com novos armamentos e dispositivos bélicos sendo testados e aprimorados como máquinas formidáveis de tirar vidas, e posições políticas e ideológicas sendo confirmadas como ameaças globais.

AP Photo/Horst Faas

Em janeiro de 1973, representantes dos Estados Unidos, Vietnã do Norte e do Sul e o Exército de Libertação Nacional do Norte, o Vietcong comunista, assinaram um acordo de paz em Paris, o que encerraria o envolvimento militar direto dos EUA na Guerra do Vietnã.

Umas das principais disposições do acordo incluíam um cessar-fogo em todo o conglomerado Vietnã, a retirada das forças americanas, a libertação de prisioneiros de guerra e a reunificação dos Vietnãs por meios pacíficos, destacando a permanência do governo do sul no cargo até que novas eleições fossem realizadas, e as forças Vietcong não avançariam mais em direção ao Sul nem seriam reforçadas.

Esse acordo refletia apenas um fato, a campanha fracassada dos EUA em território selvagem vietcong, um gesto para salvar as aparências do governo americano controlado pelo presidente Richard Nixon, mas uma guerra que fora iniciada por Dwight D. Eisenhower.

Mesmo diante do acordo, os vietnamitas comunistas violaram o cessar-fogo e, no início de 1974, a guerra em grande escala havia recomeçado.

Em 1975, o então presidente Gerald Ford participava de uma reunião importante quando seu vice-conselheiro de segurança nacional entrou e lhe passou uma nota: “Saigon está caindo, e mais rápido do que o esperado!”.

Ford então se reuniu com seu Conselho de Segurança Nacional na Sala Roosevelt. Embora seu antecessor, Richard M. Nixon, tivesse retirado as tropas americanas da guerra dois anos antes, diplomatas, oficiais de inteligência e um pequeno número de militares permaneceram na capital do Vietnã do Sul, Saigon.

Em abril de 1975, o Congresso e o Pentágono pressionaram durante semanas para que Ford agisse o mais rápido possível para evacuar os americanos e seus aliados sul-vietnamitas.

Foi então que o presidente Ford ordenou a evacuação por meio de uma aeronave C-130 Hércules, mas horas depois, com dois dos aviões sobrevoando, os militares determinaram que não seriam capazes de pousar, por vietnamitas na pista e Vietcong à espreita.

Nos dias finais da Guerra, numa tarde da noite em Washington e meio-dia do dia seguinte em Saigon, o embaixador dos EUA no Vietnã do Sul, Graham Martin, informou à Casa Branca que a equipe da embaixada estava impedida de chegar ao aeroporto.

As rotas marítimas também foram bloqueadas. A única saída agora era de helicóptero.

Nos dias 29 e 30 de abril, mais de 80 helicópteros, cada um com capacidade para transportar 50 pessoas, transportaram americanos e vietnamitas para a segurança a bordo de navios americanos no Mar da China Meridional.

A cada 10 minutos, um novo helicóptero pousava no estacionamento da Embaixada dos EUA ou no aeroporto em ruínas para pegar outra carga.

Milhares de civis escalaram as paredes da embaixada, na esperança de entrar em um dos helicópteros; os funcionários da embaixada processavam os vistos o mais rápido que podiam.

Em um prédio de apartamentos na cidade, uma mistura de funcionários diplomáticos e de inteligência junto com sua equipe vietnamita foram presos, então helicópteros começaram a fazer pousos ousados em um pequeno telhado do complexo para resgatá-los.

De um hotel a 800 metros de distância, o fotógrafo da United Press International, Hubert Van Es, tirou uma foto dessa evacuação, capturando a imagem mais icônica da queda de Saigon. O prédio às vezes é identificado erroneamente como a embaixada.

A operação encerrou a participação americana e sua derrota.

Muitos analistas e entusiastas compararam a chamada queda de Saigon com a tomada da capital do Afeganistão, a cidade de Cabul, pelo Talibã e a retirada de civis, militares, aliados e diplomatas americanos, um retrato cruel e inevitável.

O grupo insurgente derrubou Cabul na manhã de domingo enquanto os EUA se esforçavam para evacuar os funcionários da embaixada e acelerar o resgate e realocação de afegãos que ajudaram os governos americanos.

AP Photo/Rahmat Gul

Muito antes da operação de resgate acontecer, fumaças subiram dos telhados da embaixada e de outras localidades coordenadas pelos aliados, eram documentos sendo destruídos, para evitar que caíssem nas mãos do Talibã.

Em um discurso na tarde de segunda-feira, o presidente Biden defendeu a retirada dos EUA do Afeganistão, invocando a memória de Gerald Ford e que não seria “Uma nova Saigon”.

Ao final, a Guerra do Vietnã havia se tornado cada vez mais impopular nos Estados Unidos e custou não apenas bilhões de dólares, mas mais de 58.000 vidas americanas.

Já o Afeganistão custou mais de US$ 2 trilhões de dólares de acordo com a Brown University, e mais de 25 mil americanos ceifados.

AP Photo/Hamed Sarfarazi

É importante destacar o termo Síndrome do Vietnã que surgiu logo ao fracasso de 1975, denotando uma relutância dos americanos em comprometer o poder militar do país no exterior, um sentimento renascido na atualidade e inevitavelmente visível com a Queda de Cabul e a fuga dos EUA no Afeganistão.

Se Saigon foi um golpe ao sentimentalismo do Poder Militar Americano Superior, o erro de cálculo do governo Biden especificamente na previsão de controle do país nas mãos de Ashraf Ghani por 6 a 9 meses e a abrupta ascensão do Talibã sobre Cabul, reforça o sentimento americano.

Numa visão de um ângulo privilegiado, sim, a queda de Cabul é um retrato de Saigon, e Biden falhou. Agora o Afeganistão é da China, que já controla grandes refinarias de petróleo.

Com informações complementares WashingtonPost, BBC, APNews, History, USA Today, Al-Jazeera, NYT, Felipe Moretti


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Felipe Moretti
Analista militar com foco em mídia de streaming, com experiência superior a 4 anos em plataformas como o YouTube e Revistas Eletrônicas, no qual é fundador e administrador do canal Área Militar. Possui capacidade técnica para a colaboração e análises em assuntos que envolvam os meios de preservação e manutenção da vida humana, em cenários de paz ou conflito.
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